
Os Quatro Evangelhos
(Capa não Disponível)
Autor: Diversos Espíritos / J.B. Roustaing
Médium: Emile Collignon
Editora: Feb
Número de Páginas: (4 volumes)
Lançamento:
Análise de José Passini.
O Espiritismo, na sua condição de Cristianismo redivivo, não poderia deixar de receber os ataques das forças contrárias ao esclarecimento e libertação do espírito humano. Embora pareça ironia, o volume e a intensidade dos ataques constituem um verdadeiro atestado da legitimidade do Consolador.
A primeira, e talvez a mais forte das investidas, foi a publicação da obra de J. B. Roustaing, conhecida, em língua portuguesa como “Os Quatro Evangelhos”.
Na obra “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, Roustaing é citado como pertencente à equipe de Kardec. Há aqueles que contestam a autenticidade de tal afirmativa. Entretanto, sabe-se que todo missionário que vem à Terra traz consigo uma equipe, constituída de Espíritos, trabalhadores de boa vontade, mas sujeitos a falhas. Zamenhof veio à Terra com um grupo de Espíritos, para a implantação do Esperanto. Dentro dessa equipe, houve um Espírito que falhou, traindo mesmo o grande Missionário, a ponto de ser chamado Judas por alguns biógrafos exaltados. E Roustaing, embora tenha reencarnado com tarefa definida junto à obra de Kardec, desejou produzir obra própria, tornando-se presa fácil de fascinação. Esse não foi o primeiro, nem o último caso na Humanidade da falência de um Espírito pertencente a um grupo de trabalho. Judas, da equipe de Jesus, falhou redondamente.
Esses quatro volumes constituem obra fantasiosa, repetitiva, que pretendeu dar nova versão à tese da virgindade de Maria, através de uma pseudo-gravidez, que teria culminado no aparecimento de um bebê fluídico, surgido de um parto fictício, de uma lactação aparente, de um desenvolvimento físico falso e de uma desencarnação enganosa.
Entretanto, não é a tese do corpo fluídico o ponto mais grave da obra. Há afirmativas que contrariam frontalmente as bases doutrinárias do Espiritismo. Vejamos algumas, dentre muitas:
Evolução do Espírito:
Com Kardec, aprende-se que o princípio inteligente percorre, durante milênios
incontáveis, as trilhas da evolução, antes de atingir o estágio de humanidade.
Aprende-se que a consciência moral que caracteriza o ser humano, libertando-o
gradualmente do jugo dos instintos, desabrocha lentamente, revelando a perfeição
imanente no Ser:
607 a. Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o
princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não? “Já não dissemos
que tudo em a Natureza se encadeia e tende para a unidade? Nesses seres, cuja
totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora,
se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de
dizer. É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por
efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito.
Entra então no período da humanização, começando a ter consciência do seu futuro,
capacidade de distinguir o bem do mal e a responsabilidade dos seus atos. Assim,
à fase da infância se segue à da adolescência, vindo depois a da juventude e
da madureza.”
Respondendo a Roustaing, os Espíritos falam numa transformação
do instinto em inteligência – num determinado momento – levada a efeito por
agentes exteriores e não através do próprio processo evolutivo, o que faz pensar
numa espécie de “colação de grau” espiritual. Interessante notar, também, que
o Espírito, depois de todas as aquisições individuais retorne ao “todo universal”,
onde, certamente, perderia a sua individualidade. Além disso, como teria, um
Espírito recém-saído da animalidade ter um perispírito tão sutil a ponto de
quase ser invisível aos Espíritos Superiores?
Como é que, chegado ao período de preparação para entrar na humanidade, na
espiritualidade consciente, o Espírito passa desse estado misto, que o separa
do animal e o prepara para a vida espiritual, ao estado de Espírito formado,
isto é, de individualidade inteligente, livre e responsável?
“É nesse momento que se prepara a transformação do instinto em inteligência
consciente. Suficientemente desenvolvido no estado animal, o Espírito é, de
certo modo, restituído ao todo universal, mas em condições especiais é conduzido
aos mundos ad hoc, às regiões preparativas, pois que lhe cumpre achar o meio
onde elaboram os princípios constitutivos do perispírito. (...) Aí perde a consciência
do seu ser, porquanto a influência da matéria tem que se anular no período da
estagnação, e cai num estado a que chamaremos, para que nos possais compreender,
letargia. Durante esse período, o perispírito, destinado a receber o princípio
espiritual, se desenvolve, se constitui ao derredor daquela centelha de verdadeira
vida. Toma a princípio uma forma indistinta, depois se aperfeiçoa gradualmente
como o gérmen no seio materno e passa por todas as fases do desenvolvimento.
Quando o invólucro está pronto para contê-lo, o Espírito sai do torpor em que
jazia e solta o seu primeiro brado de admiração. Nesse ponto, o perispírito
é completamente fluídico, mesmo para nós. Tão pálida é a chama que ele encerra,
a essência espiritual da vida, que os nossos sentidos, embora sutilíssimos,
dificilmente a distinguem.” : (1º vol., pág. 308).
Respondendo a Kardec, os Espíritos ensinam que o Espírito emerge
lentamente da animalidade, das necessidades materiais, através de sucessivas
encarnações, que se constituem em oportunidades absolutamente necessárias ao
progresso do Espírito.
609. Uma vez no período da humanidade, conserva o Espírito traços do que
era precedentemente, quer dizer: do estado em que se achava no período a que
se poderia chamar ante-humano?
“Conforme a distância que medeie entre os dois períodos e o progresso realizado.
Durante algumas gerações, pode ele conservar vestígios mais ou menos pronunciados
do estado primitivo, porquanto nada se opera na Natureza por brusca transição.
Há sempre anéis que ligam as extremidades da cadeias dos seres e dos acontecimentos.
Aqueles vestígios, porém, se apagam com o desenvolvimento do livre-arbítrio.
Os primeiros progressos só muito lentamente se efetuam, porque não têm a secundá-los
a vontade. Vão em progressão mais rápida à medida que o Espírito adquire mais
perfeita consciência de si mesmo.”
Os Espíritos, respondendo a Roustaing, afirmam que o Espírito
só volta à vida material por castigo. Se só é humanizado após a primeira falta,
depreende-se que a população da Terra é constituída de Espíritos faltosos: (...)
para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência
de suas faculdades, consciência e liberdade dos seus atos, livre-arbítrio e
que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro,
em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja
atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo?
“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos.
E o castigo não pode preceder a culpa. O Espírito não é humanizado, também já
o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana.
Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as
conseqüências.” (1º vol., pág. 317)
Em Kardec, aprende-se que o progresso do Espírito é irreversível,
o que é racional, pois se não houvesse a irreversibilidade do progresso espiritual
não haveria segurança nem estabilidade no Universo.
118. Podem os Espíritos degenerar?
“Não; à medida que avançam, compreendem o que os distanciava da perfeição. Concluindo
uma prova, o Espírito fica com a ciência que daí lhe veio e não a esquece. Pode
permanecer estacionário, mas não retrograda.”
Roustaing admite possa um Espírito que já desempenhou funções
elevadas no Mundo Espiritual ser tomado pela inveja, pelo orgulho, etc., o que
evidencia uma nova versão para a “queda dos anjos”, conforme a teologia Católica
Romana e, também, a Protestante.
“Já tendo grande poder sobre as regiões inferiores, cujo governo aprenderam
a exercer, no sentido de que, sempre sob as vistas dos Espíritos prepostos à
missão de educá-los e sob a do protetor especial do planeta de que se trate,
aprendem a dirigir a revolução das estações, a regular a fertilidade do solo,
a guiar os encarnados, influenciando-os ocultamente, muitos acreditam que só
ao merecimento próprio devem o que podem e, desprezando todos os conselhos,
caem. É a queda pelo orgulho. Outros, por nem sempre compreenderam a ação poderosa
de Deus, não admitem haja uma hierarquia espiritual e acusam de injustiça aquele
que os criou, porquanto é Deus quem cria, não o esqueçais. Esses os que caem
por inveja. Até o ateísmo – por mais impossível que pareça – até o ateísmo se
manifesta naqueles pobres cegos colocados no centro mesmo da luz. (...) Nesse
caso, sobretudo nesse caso, mais severo é o castigo. É um dos casos de primitiva
encarnação humana. Preciso se torna que os culpados sintam, no seu interesse,
o peso da mão cuja existência não quiseram reconhecer. Qualquer que seja a causa
da queda, orgulho, inveja ou ateísmo, os que caem, tornando-se, por isso, Espíritos
de trevas, são precipitados nos tenebrosos lugares de encarnação humana, conforme
o grau de culpabilidade, nas condições impostas pela necessidade de expiar e
progredir.” (1º vol., pág. 311)
Kardec obtém dos Espíritos Superiores resposta que deixa muito
claro que o Espírito que atingiu a humanização não retorna jamais às formas
animais, o que contraria frontalmente a teoria da Metempsicose,
612. Poderia encarnar num animal o Espírito que animou o corpo de um homem?
“Isso seria retrogradar e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à sua
nascente.”
Em Roustaing, vê-se que, além de admitir a Metempsicose, afirmam
seus interlocutores possa um Espírito voltar à Terra, ou a outros mundos, animando
corpos primitivíssimos, como larvas!
Haveis dito que os Espíritos destinados a ser humanizados, por terem errado
muito gravemente, são lançados em terras primitivas, virgens ainda do aparecimento
do homem, do reino humano, mas preparadas e prontas para essas encarnações e
que aí encarnam em substâncias humanas, às quais não se pode dar propriamente
o nome de corpos, nas condições de macho e fêmea, aptos para a procriação e
para a reprodução. Quais as condições dessas substâncias humanas?
“São corpos ainda rudimentares. O homem aporta a essas terras no estado de esboço,
como tudo que se forma nas terras primitivas. O macho e a fêmea não são nem
desenvolvidos, nem fortes, nem inteligentes. Mal se arrastando nos seus grosseiros
invólucros, vivem, como os animais, do que encontram no solo e lhes convenha.
As árvores e o terreno produzem abundantemente para a nutrição de cada espécie.
Os animais carnívoros não os caçam. A providência do Senhor vela pela conservação
de todos. Seus únicos instintos são os da alimentação e os da reprodução. Não
poderíamos compará-los melhor do que a criptógamos carnudos. Poderíeis formar
idéia da criação humana, estudando essas larvas informes que vegetam em certas
plantas, particularmente nos lírios.” (págs. 312 / 313)
Autenticidade da Encarnação de Jesus:
Kardec mostra Jesus como o modelo mais perfeito para a evolução humana, logo,
o seu corpo deveria ter a mesma constituição do corpo daqueles aos quais ele
deveria servir de modelo, e seu testemunho basear-se na verdade:
624. Qual o caráter do verdadeiro profeta?
“O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podeis reconhecê-lo
pelas suas palavras e pelos seus atos. Impossível é que Deus se sirva da boca
do mentiroso para a ensinar a verdade.”
625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir
de guia e modelo?
“Jesus.”
Roustaing mostra um Jesus que estaria fingindo estar encarnado,
desde o seu nascimento até a sua morte, que teria sido também um simulacro,
uma verdadeira encenação teatral. Além do mais, ainda o chama de um Deus milagrosamente
encarnado! (1º vol., págs. 242 / 243)
“(...) um homem tal como vós quanto ao invólucro corporal e, ao mesmo tempo,
quanto ao Espírito, um Deus: portanto, um homem-Deus. (pág. 242)
Kardec afirma categoricamente que Jesus teve um corpo carnal e
um corpo fluídico, como todos encarnados temos: (A Gênese, cap. XV, itens 65
e 66)
“A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e
o que se seguiu à sua morte. No primeiro, desde a sua concepção até o nascimento,
tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe, como nas condições ordinárias da
vida. Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem
e nas diversas circunstâncias de sua vida, revela caracteres inequívocos de
corporeidade. (...) também forçoso é se conclua que, se Jesus sofreu materialmente,
do que não se pode duvidar, é que ele tinha um corpo material de natureza semelhante
ao de toda gente.”
“Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações morais. Se as condições
de Jesus, durante sua vida, fossem as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado
nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja sido, é tirar-lhe
o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de
resignação. (...) e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia
indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte
razão de um ser tão superior. Numa palavra, ele teria abusado da boa fé dos
seus contemporâneos e da posteridade. Tais as conseqüências lógicas desse sistema,
conseqüências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem.
Jesus teve, pois, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que
é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram
a existência.”
Roustaing mostra um Jesus que estaria fingindo estar encarnado,
que fingia alimentar-se, desde o seu nascimento. (1º vol, págs. 243, 362 e 363)
“Quando Maria, sendo Jesus, na aparência, pequenino, lhe dava o seio – o
leite era desviado pelos Espíritos superiores que o cercavam, de um modo bem
simples: em vez de ser sorvido pelo menino, que dele não precisava, era restituído
à massa do sangue por uma ação fluídica, que se exercia sobre Maria, inconsciente
dela.” (pág. 243)
“Os Espíritos superiores que o cercavam em número, para vós, incalculável, todos
submissos à sua vontade, seus dedicados auxiliares, faziam desaparecer os alimentos
que lhe eram apresentados e que não tinha para ele utilidade. Aqueles Espíritos
os subtraiam da vista dos homens, de modo a lhes causar completa ilusão, à medida
que pareciam ser ingeridos por Jesus, cobrindo-os, para esse fim, de fluidos
que os tornavam invisíveis.”
Aparição de Moisés e Elias:
Inegavelmente, as afirmações mais claras a respeito da reencarnação, contidas
no Novo Testamento, encontram-se nos Evangelhos de Mateus (17: 10-13) e de Marcos
(9: 11), onde se lê que Jesus dialogou com Moisés e Elias no Tabor, diante dos
discípulos Pedro, Tiago e João. Questionado quanto à identidade de Elias, o
Mestre afirma categoricamente que João Batista foi a reencarnação do Profeta
Elias.
Em Roustaing, de maneira fantasiosa e completamente inverossímil,
numa tentativa de desacreditar a reencarnação, misturando fatos e fantasias,
é declarado que Moisés, Elias e, conseqüentemente, João Batista são o mesmo
Espírito, e que ali, no Monte Tabor, um outro Espírito tomou a aparência de
Moisés e conversou com Jesus:
“O que, porém, Jesus naquela ocasião não podia nem devia dizer e que agora
tem que ser dito é o seguinte: Moisés – Elias – João Batista – são uma mesma
e única entidade. Estamos incumbidos de vos revelar isso, porque chegou o tempo
em que se tem de “realizar” a “nova aliança”, em que todos os homens (Judeus
e Gentios) se têm que abrigar debaixo de uma só crença, da crença – em um Deus,
uno, único, indivisível, Criador incriado, eterno, único eterno: o Pai; em Jesus-Cristo,
vosso protetor, vosso governador, vosso mestre: o Filho; nos Espíritos do Senhor,
Espíritos puros, Espíritos superiores, bons Espíritos que, sob a direção do
Cristo, trabalham pelo progresso do vosso planeta e da sua humanidade: o Espírito
Santo. (2º vol., págs 497 / 498)
A obra é volumosa, pesada, extremamente repetitiva, escrita em tom catedrático, pretensioso, que nos remete diretamente a “O Livro dos Espíritos”, item 104, no magistral estudo que o Codificador faz a respeito da “Escala Espírita”, quando se refere aos Espíritos pseudo-sábios. São Espíritos pertencentes a comunidades espirituais que teimam em manter erros doutrinários relativamente à interpretação da Mensagem Cristã, para as quais o Espiritismo representa grande perigo por esclarecer a Humanidade.
A respeito desses Espíritos, Emmanuel faz séria advertência, que serve também como alertamento, diante dessa verdadeira “onda editorial” que está alimentando a vaidade de médiuns invigilantes e enriquecendo editoras: “As próprias esferas mais próximas da Terra, que pela força das circunstâncias se acercam mais das controvérsias dos homens que do sincero aprendizado dos espíritos estudiosos e desprendidos do orbe, refletem as opiniões contraditórias da Humanidade, a respeito do Salvador de todas as criaturas.” (“A Caminho da Luz,” cap. 12).
Felizmente, a onda de roustainguismo está passando. Mas como existem ainda muitos volumes dessa obra em bibliotecas e livrarias, animamo-nos a fazer estas anotações.