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Crítica Literária

Seara Bendita

Autor: Diversos Espíritos
Médium: Wanderley Soares de Oliveira / Maria José C. Soares de Oliveira
Editora: Dufaux
Número de Páginas: 274
Lançamento:

Análise de Equipe da Federação Espírita do Mato Grosso (Coordenação de Saulo Gouveia Carvalho).

O objetivo deste trabalho é fazer uma análise da obra mediúnica do médium Wanderley Soares de Oliveira, atribuída a supostos espíritos como Ermance Dufaux, Bezerra de Menezes, Cícero Pereira e outros, demonstrando as razões pelas quais a Federação Espírita do Estado de Mato Grosso não referenda a referida obra.

O nosso intuito não é o de denegrir o trabalho de ninguém, mas de auxiliar no esclarecimento do Movimento Espírita acerca de um dos processos de mistificação dos mais bem urdidos nos últimos tempos com o intuito de prejudicar o movimento, mormente o de unificação, em conformidade com as finalidades da FEEMT, estabelecido no artigo 2º. de seu estatuto social.

Nos últimos anos vem ganhando campo no movimento espírita um movimento denominado “atitudes de amor” lançado através do médium Wanderley S. de Oliveira, cujo objetivo é supostamente renovar o movimento espírita pelas práticas do amor.

Um movimento assim seria muito nobre se não escondesse no seu bojo a sua real destinação, que é denegrir o movimento de unificação e tornar as atividades mediúnicas realizadas nos Centros Espíritas uma prática destituída da análise pelo bom senso como nos ensinou Allan Kardec. Analisamos três obras do referido médium: Seara Bendita, Reforma Íntima sem martírio e Lírios de Esperança para corroborar a tese que colocamos acima.

O movimento começa a partir do lançamento da obra Seara Bendita, que além do médium Wanderley Soares de Oliveira traz a parceria de Maria José S. de Oliveira.

Trata-se de uma obra com 47 mensagens assinadas por vários Espíritos, além de um apêndice que traz outras 10 mensagens, incluindo uma que tem por título “Atitude de Amor”, que posteriormente foi lançada separadamente num opúsculo. Desta mensagem surgiu a idéia do movimento.

Os supostos autores espirituais quando encarnados tiveram relação direta ou indireta com o movimento de unificação seja na Federação Espírita Brasileira, dos quais seis deles são supostamente seus ex-presidentes, e outros pertencentes à União Espírita Mineira.

O que chama muita atenção do leitor é que todas as mensagens, mesmo assinadas por 35 diferentes espíritos apresentam o mesmo estilo literário, fato que por si só demonstra o seu caráter mistificador. Os supostos espíritos usam os mesmos chavões, repetindo-se o mesmo tema várias vezes, como técnica típica da chamada “lavagem cerebral”. Todas elas apresentam sofismas de modo a melhor enganar.

Vamos nos reportar a uma mensagem especificamente, considerada mais importante de todas pelos autores, aquela que é assinada por Cícero Pereira, que faz uma reportagem de uma suposta palestra para 5000 espíritos, encarnados e desencarnados, atribuída a Dr. Bezerra de Menezes, realizada na noite após o encerramento do Congresso Espírita Brasileiro em Goiânia em 1999.

Analisemos alguns trechos:

“Os primeiros setenta anos do Espiritismo constituíram o período da consagração das origens e das bases em que se assentam a Doutrina, que lhe conferiram legitimidade. Heróis da tenacidade e fibra moral, dispostos a imolar-se pela causa, venceram o preconceito do tempo e a pressão da inferioridade humana no resguardo e defesa da empreitada de Allan Kardec. O último lance que delimitou esse período foi o Congresso Internacional de Espiritismo realizado em Paris (3), onde o arauto do bem, Leon Dénis, suportou a lâmina sutil da mentira e consolidou o perfil definitivo do Espiritismo como Doutrina dos Espíritos, eximindo-a de desfigurações que em muito prejudicariam sua feição educativa e conscientizadora. O segundo período de mais setenta anos, que coincide com o fechamento do século e do milênio, foi o tempo da proliferação. Uma idéia universal jamais poderia ficar confinada a grupos de estudo ou experimentos da fenomenologia mediúnica de materialização; fazia-se necessária a intensificação dos conhecimentos dentro de um crescimento ordenado e defensivo na elaboração de um perfil filosófico. Eis o mérito das entidades promotoras da unificação e da multiplicação de centros espíritas. Sob o regime de controle e zelo foram predicados os seus objetivos primaciais. A literatura subsidiária provocou o questionamento, a discussão, o estudo, e com isso o aprendizado dilatou-se. A primeira etapa consagrou o Espiritismo como ideário do bem, atraindo a simpatia e superando o preconceito; a segunda ensejou a difusão. Penetramos agora o terceiro portal de mais setenta anos, etapa na qual pretende-se a maioridade das idéias espíritas”

Causa muita estranheza um Espírito da categoria de Dr. Bezerra de Menezes falando de períodos estanques. Isso não é típico de Espíritos Superiores que sabem que o tempo é relativo. Além da falácia da delimitação do tempo, as definições dos períodos não correspondem à realidade e é claro que Dr. Bezerra como um dos orientadores do movimento espírita mundial sabe disso.

Por exemplo, o segundo período chamado de “tempo da proliferação”, no que tange ao mundo, aconteceu exatamente o oposto. Sabe-se que na Europa existiam centenas de Centros Espíritas, que em sua maioria desapareceram exatamente nesse período. Somente no Brasil houve uma proliferação de Centros Espíritas, mesmo assim de maneira ainda muito incipiente na maioria das regiões do País.

Vejamos mais um trecho:

“A diversidade é uma realidade irremovível da Seara e seria utopia e inexperiência tratá-la como “joio”. Imprescindível propalar a idéia do ecumenismo afetivo entre os seareiros, para que a cultura da alteridade seja disseminada e praticada no respeito incondicional a todos os segmentos. A atitude de alteridade será o termômetro do progresso das idéias espíritas no movimento, será o “trigo” vicejante e plenificado na ética da fraternidade vivida. As instituições embebidas desse espírito promoverão o diálogo franco e transparente e construirão através das relações as transformações. O desafio está lançado”.

Se uma das características do espiritismo é a universalidade, isto é, a confirmação de idéias novas por diferentes médiuns uma pergunta que fica sem resposta é: Por que Dr. Bezerra não se reporta a essas propostas de “ecumenismo afetivo” e “cultura da alteridade” na reunião do Conselho Federativo Nacional na sua mensagem tradicional ao movimento espírita, através do médium Divaldo P. Franco? Já são seis anos desde o ano 2000 quando esta proposta foi lançada no livro Seara Bendita e Dr. Bezerra nunca a confirmou por Divaldo Franco. Se fossem verdadeiras, com certeza já as teria confirmado e conclamado o movimento espírita a segui-las.

Muitas perguntas sem respostas:

“A diretriz insuperável de Jesus continua como roteiro de rara oportunidade. Precisamos “conferir poder”. Como amar o próximo? Como obter abnegação? Como treinar a alteridade? Comprometimento é difícil para quem? É possível desenvolver a indulgência? Como dialogar em climas adversos? Como dialogar? O que é solidariedade e parceria? Como conceber a unificação em tempos de pluralismo? Ela é viável? Como oferecer essas condições de “poder” aos novos servidores da causa cristã? Qual o poder de transformação estamos viabilizando a homens comuns que encontram esperanças e alento nos celeiros de paz da casa espírita? Que temos feito para que as direções abram-se ao espírito de simplicidade? Que propostas temos a apresentar para facilitar um tempo de aproximação pacífica entre as várias tendências da Seara? Por que é tão importante essa aproximação?"

Perguntas que na verdade escondem a idéia implícita de se questionar a validade do movimento de unificação.

Em relação ao teor da mensagem como um todo basta analisar a linguagem intencionalmente vaga como a que se segue:

“Estamos em campanha. Campanha pela renovação das atitudes. Temos um problema na Seara: as más atitudes. Temos uma solução para a Seara: novas atitudes. Seja essa a nossa campanha no bem pelos tempos novos a que todos somos chamados. Todos aqui, mormente os que se acostumaram à docilidade e ternura de meu coração, não se surpreendam com a franqueza de minhas palavras. Estejam certos que o sentimento é o mesmo e sempre será.”.

Basta comparar com as recebidas por Chico Xavier, Yvone Pereira ou Divaldo P. Franco para perceber que não é verdadeiramente de Dr. Bezerra.

Façamos um parêntese para explicar sobre essa modalidade de linguagem. A linguagem intencionalmente vaga é uma técnica de comunicação utilizada para melhor enganar, pois a pessoa fala de forma vaga e cada um imagina o que quiser. Por exemplo, nas frases: Temos um problema na Seara: as más atitudes. Temos uma solução para a Seara: novas atitudes. Poderíamos questionar que atitudes, especificamente, são essas, tanto as más, quanto as novas. Conforme no diz Kardec em O Livro dos Médiuns o que caracteriza um Espírito Superior é dizer muito em poucas palavras devido a sua sabedoria. Um Espírito Superior como Dr. Bezerra jamais usaria a linguagem intencionalmente vaga, que é utilizada com o fim de enganar e não de demonstrar a real intenção do Espírito. Os livros do referido médium estão repletos dessa linguagem, de modo a construir sofismas nas quais muitas pessoas acabam acreditando ser verdades.

O espírito que descreve as ocorrências após a suposta palestra a uma certa altura relata:

“Acompanhando-nos, discreta como de costume, a nossa Ermance Dufaux, que tem sido o coração de nossas movimentações espirituais. Constatei surpreendido que os olhos de Bezerra dilataram-se com o aproximar de Ermance; ele, que sempre ensaiava um termo ou outro na sua costumeira ternura, emudeceu-se, pegou as mãos delicadas da nossa amiga, beijou-as e disse: “Filha, suas mãos representam troféus luminosos da vitória do Espiritismo nascente, quando as cedeste para a sublime consecução de “O Livro dos Espíritos”, e se anseias por torná-las úteis novamente nos serviços do bem, providenciaremos rumos a teus inspirados desejos.” Ermance enrubesceu e lacrimejou, porque o sentimento elevado de Bezerra lhe havia sondado as profundezas da alma, percebendo-lhe a súplica velada na intensa disposição de contribuir com os destinos novos da causa. Ela, num ímpeto generoso, mas guardando a típica fleuma de uma dama francesa, osculou com um fraterno afago a cabeleira do paladino, e sem dizer uma só palavra abraçou-o incontinente, com efusivo amor”.

Aqui o hábil mistificador prepara o terreno para os futuros livros que surgiriam futuramente, nos quais provavelmente ele próprio usa o nome Ermance Dufaux, que neste trecho é mostrada como um espírito de alta envergadura moral diante do qual até Dr. Bezerra se sente deslumbrado. Novamente o suposto Dr. Bezerra parece desconhecer um dado histórico, que reporta que a verdadeira Ermance Dufaux não psicografou O Livro dos Espíritos inteiro, mas apenas parte dele com a participação de outras médiuns adolescentes e que Allan Kardec utilizou textos enviados por médiuns de mais de 1000 núcleos espíritas sérios para compor O Livro dos Espíritos.

Acreditamos que ardilosamente ele usa o nome Ermance Dufaux por se tratar de um nome conhecido do movimento espírita, do qual não se tem muitas referências, a não ser de que ela foi uma das médiuns que recebeu algumas questões de O Livro dos Espíritos. Com isso não despertaria futuramente indagações sobre o suposto conhecimento psicológico que aparentemente demonstra em suas obras.