
Mereça
Ser Feliz
Autor: Ermance Dufaux
Médium: Wanderley Soares
Editora: Dufaux
Número de Páginas: 186
Lançamento:
Análise de José Passini
Esta obra, como muitas outras que estão surgindo diariamente por via mediúnica, contém ensinamentos edificantes, citações de Jesus, de Kardec, de conhecidos Benfeitores Espirituais. Entretanto, de permeio, traz mensagens desalentadoras, num ataque generalizado contra os espíritas, sob a capa de alertamento. Atentando-se para os temas abordados e o estilo dos escritores, facilmente pode-se concluir que se trata de um plano para desacreditar o Espiritismo, desanimar trabalhadores, desvalorizando-lhes o trabalho no Bem. Às vezes sutilmente, às vezes diretamente, procuram desmerecer até o próprio estudo da Doutrina. A julgar-se pela ótica deste livro, e de outros da mesma orientação, o Espiritismo não está conseguindo ser escola de aperfeiçoamento para ninguém, o que é absolutamente falso! Para estudo, transcrevemos alguns trechos, em itálico, colocando entre parênteses o número da página. Conservamos fielmente a grafia original, inclusive algumas falhas gramaticais.
"Assim, o aprendiz começa a sua faina espiritual, doando-se
nas atividades de amor ao próximo e na afanosa busca de conhecimento. O tempo
passa e a melhora é evidente. Contudo, o próprio trabalhador observa, em determinado
momento, que se encontra diante de si mesmo com o grave compromisso de transformação
e crescimento, tendo uma longa jornada a encetar. Nesse ínterim, experimenta
a sensação de que o progresso efetivado não é compensador e passa a debater-se
com a questão da felicidade, do equilíbrio e da superação de velhos vícios."
(29)
Não conheço um único caso de alguém que se tenha colocado em atividades de amor
ao próximo e se tenha dedicado a estudos, que não tenha crescido espiritualmente.
Qual seria a intenção desse Espírito ao fazer essa afirmativa?
"Comum observar, igualmente, o pessimismo em que se encontram
muitas lideranças valorosas, entregues ao desânimo depois de ricos investimentos
na lavoura doutrinária em anos de trabalho e devoção, desacreditando de tudo
e de todos, projetando no movimento espírita o derrotismo que tomou conta do
seu campo mental. Essa questão sutil da vivência espírita tem passado despercebida
de muitos, e não é por outra razão que bons tarefeiros têm abandonado a sementeira
ou tomado (sic) em diversos insucessos do comportamento..." (30)
Outra afirmativa destituída de base. Podem acreditar nela aqueles que não militam
no meio espírita. Novamente, a Autora toma casos isolados como regra geral.
Os espíritas não são seres perfeitos, mas tomar as atitudes de alguns poucos
como verdade geral é torcer os fatos, faltando à verdade.
"Os excessos nesse tema são reais; a intransigência, a
normatização têm servido para assustar e atemorizar muitos corações. Frases
impiedosas e humilhantes têm sido estatuídas a pretexto de esculpir um modelo
de conduta ou padrão para a vida espírita, calcadas em velhos chavões religiosistas
no estilo “espírita faz isso, espírita faz aquilo”, subtraindo a possibilidade
da conscientização, do amadurecimento, da interiorização dos conteúdos pelas
vias sagradas do coração." (31)
A ser verdade o afirmado acima, os centros espíritas estariam se esvaziando
progressivamente. Entretanto, o que ocorre é exatamente o contrário. Vê-se um
aumento assustador na freqüência às casas espíritas. Esse Espírito, se estivesse
bem informado, por certo chamaria a atenção para a necessidade urgente da preparação
de evangelizadores de infância, de juventude e de expositores para o público
em geral.
"E o mais lamentável é que muitos corações passam a acreditar
que esse mecanismo de sofrimento é o resultado de reflexos do seu passado reencarnatório,
quando, em verdade, a pessoa está no labirinto de si mesma sem conseguir encontrar
as saídas pelas quais já poderia ter passado, caso guardasse melhor habilidade
de conviver bem consigo própria." (32)
O Espiritismo realmente nos ensina que estamos na colheita de nossas semeaduras
do passado, próximo ou remoto, mostrando que a melhor solução para as dificuldades
presentes é o trabalho no Bem e o esforço na construção da paz íntima. A Autora
desconhece que os ensinamentos espíritas apontam exatamente no sentido contrário
desse cultivo da dor para a remissão de pecados? Ela tenta passar a imagem de
que a depressão campeia no meio espírita. Por que, ao invés dessa mensagem desalentadora,
não fala do valor da prece?
“Adentramos o centro espírita. Era intensa a movimentação em
ambos os planos. Em uma saleta mais resguardada, vimos o irmão Santos, presidente
daquela agremiação, em sentida prece a Jesus pelas tarefas da noite. Após isso,
expediu normas à pequena equipe de atendentes para os serviços do diálogo fraterno
que logo se iniciaria. Nosso irmão Santos apresentava um halo reluzente que
denotava paz e equilíbrio interior.” “Logo após, ao ouvir o relato de bela jovem
desequilibrada, o presidente do centro, se encanta com ela, e, sentindo forte
inclinação para um desvio comportamental, faz o seguinte apelo: “Jesus, por
que o Senhor faz isso comigo? Como posso resistir a semelhante tentação? Perdoe-me,
mas tenho minhas necessidades!... Estou confuso e fraco. Não consigo resistir!”
(43)
Essa, a fragilidade do presidente de uma agremiação espírita, pai de três filhos,
cuja esposa era trabalhadora da instituição. Como pode um trabalhador, cuja
luz espiritual que o rodeava apenas diminuíra, desequilibrarse simplesmente
por ouvir o relato da vida amorosa de uma criatura? E o que dizer dessa prece
a Jesus, cobrando do Mestre a tentação que lhe teria destinado? A Autora, ao
transcrever a história desse presidente de centro quer, mais uma vez, demonstrar
a fragilidade daqueles que apenas “trabalham no Bem e estudam”. Qual a orientação
seria dada a Santos, para que não fraquejasse?
"Ele havia se envolvido incontrolavelmente com a bela
jovem. Permitiu-se sonhos de ventura e paixão, enquanto ouvia a dor alheia,
e num impulso infantil, mas demonstrando uma fachada de tranqüilidade, atravessou
todas as dependências da instituição em passo apressado e foi até a sala de
passes, carregando enorme desespero e lascívia. Apenas queria fruir o prazer
de vê-la outra vez. Terminada a tarefa, seguimos o dedicado servidor até a sua
residência. Esquivou-se dos cumprimentos de cordialidade, deixando seus familiares
atônitos e trancou-se em seu escritório particular, recusando conversa e convivência.”
(44)
Sempre o alvo dos relatos equivocados são espíritas, principalmente os dirigentes...
Imaginemos, se um dedicado dirigente espírita é tão frágil, está tão sujeito
a falhas tão grosseiras, de que lhe vale o esforço no Bem? Quem julgasse o Espiritismo
pela ótica desse Espírito, não acreditaria mais em nada. Parece que Ermance
vai propor uma postura nova diante dos ensinamentos dos Espíritos, no que tange
à aplicação do Evangelho na vida.
"Mauro, nosso companheiro é um reincidente contumaz Sua
invigilância vem agravando-se a bom tempo. Como ninguém lhe supervisiona os
atos, considerando-se que ele é o “supervisor” de todos na condição de dirigente,
fica à mercê de suas limitações. Não tendo com quem possa lhe ouvir ou não querendo
abrir-se para diálogo sincero com quem vote confiança, enfraquece-se em lamentável
crise de sigilo mantendo a fachada de bom espírita, porém, solitário e cansado
em suas lutas." (44)
É uma proposta utópica, absurda, essa de os trabalhadores de um grupo exporem
suas limitações, seus problemas íntimos, aos demais companheiros de trabalho,
ainda mais no tocante à vida sexual. Se ainda não aprendemos a dialogar abertamente
nem nos grupos mediúnicos, se ainda não conseguimos nos libertar dos melindres,
como, então, propor passos tão arrojados? Afinal, quem orientaria o grupo? Quem
seria o psicoterapeuta? Por que não aplicar o que se aprende, na Doutrina, ou
seja, a busca do aconselhamento com Espíritos Amigos, durante o sono físico?
Um espírita que tenha a lucidez de analisar seus atos, sentindo a própria fragilidade,
é alguém que busca aperfeiçoar-se. Nesse caso, não seria mais fácil solicitar
socorro aos amigos espirituais, confessar- se a eles, rogando-lhes amparo, do
que abrir sua vida íntima aos companheiros de trabalho? Será que esse Espírito
não mediu as proporções da utopia que propõe? Ou mediu-as?
"Esse sutil ufanismo ronda as esferas doutrinárias quando
se crê, com a melhor das intenções, que a Revelação Espírita é a “única” estrada
de acesso para a libertação do homem junto aos cativeiros das expiações terrenas."
(56)
Parece que esse Espírito tem visitado outras esferas doutrinárias, que não as
espíritas, pois que “O Evangelho segundo o Espiritismo” tem o cap. XV intitulado:
“Fora da caridade não há salvação”, e não “Fora do Espiritismo...”
"Pregam felicidade e apontam rumos, aliviando o outro
com a tese de que em Espiritismo não se cobra valores financeiros pelos bens
espirituais, incentivando a procura e a adesão como se angariasse um fiel para
salvação, despreocupando em confortar as chagas e ser o mensageiro da doutrina
em si próprio, para aquele que sofre e necessita de arrimo. Essa “ética de reclusão”
enseja uma quase “alienação” dos centros espíritas junto aos problemas sociais,
porque destaca-se como vantajoso e correto que a sociedade busque o centro e
não o inverso." (56 / 57)
Será que esse Espírito tem certeza do que está dizendo? Até mesmo pessoas de
outras religiões reconhecem a caridade como principal característica do Espiritismo!
Hoje, além do socorro material propiciado através 3 do alimento e do vestuário
– quando não até de moradia –, está se generalizando, e com excelentes resultados,
o “Atendimento Fraterno” que, através da conversa evangelizante leva-se aquele
que busca o socorro à prática da reflexão, do auto-conhecimento, à luz da prece,
com o auxílio do passe e, em certos casos, o encaminhamento à desobssessão?
Observe-se a falácia do conselho para que o centro espírita busque a sociedade.
Será que é sugestão para que os espíritas batam de porta em porta oferecendo
o Espiritismo, como outras religiões fazem?
"Forma-se assim uma linguagem, um discurso estereotipado
com sugestões derivadas dessa atitude ufanista como a de solicitar ao novo freqüentador
que deixe a sua religião para poder freqüentar a casa espírita, ou ainda que
abdique de novenas e hábitos de adoração por não condizerem com o “estereótipo
espírita”, ou mesmo na formulação de teses sobre carmas e mediunidade a desenvolver
como se fossem “senhas de aceitação e batismo” do novo aprendiz nas atividades
doutrinárias." (56 / 7)
São verdadeiramente estarrecedoras essas afirmativas. Onde esse Espírito viu
essas práticas? Está se tornando comum, em obras mediúnicas, a tentativa de
minimizar ou de anular o valor da vivência espírita. Aos trabalhadores, essas
mensagens não afetam, mas atingem aqueles que se aproximam do Espiritismo. Esses,
o alvo principal de semelhantes pronunciamentos.
"Grande decepção será pernoitar nesse ufanismo doutrinário
e acordar nas paragens extrafísicas decepcionados com a dura realidade de nossa
condição espiritual, quando então será constatado que incontáveis almas vitoriosas
e felizes jamais ouviram falar em Espiritismo, porque serviram única e exclusivamente
à religião cósmica da caridade: muito amaram." (57)
Sócrates, Francisco de Assis, Ghandi, Madre Tereza de Calcutá, Albert Schweitzer,
além de todos os Espíritos que se comunicaram com Kardec – logo, antes do advento
do Espiritismo – , não eram espíritas, e são freqüentemente citados como modelos
em palestras e na literatura. Será que, diante disso, ainda haveria necessidade
de esse Espírito fazer essa advertência aos espíritas? Se endereçasse suas palavras
a pessoas de outras religiões – algumas que pregam a exclusividade da salvação
–, até seria compreensível. O que pretende, afinal, esse Espírito?
"E essa madureza vem se operando, ato contínuo, enquanto
ficamos nas “janelas de nossas agremiações” esperando que o mundo se converta
ao Espiritismo, assemelhando-se à figura lendária Rapunzel, deixando crescer
longas tranças de prepotência, enunciando frases do tipo: “o Espiritismo explica
tudo, tem resposta para tudo há mais de um século!” (58)
Há várias maneiras de se combater o Espiritismo. Uma dessas é esta: combatê-lo
através de uma obra mediúnica, contendo afirmativas assim tão levianas, infiltradas
na nobre literatura Espírita, Muitos espíritas dirão que isso não merece nem
comentário. Só os fazemos porque obras danosas com esta têm endereço certo:
as mãos daqueles que estão se iniciando no Espiritismo. Além do mais, há a necessidade
imperiosa de se denunciar essa e outras obras semelhantes como não espíritas.
"O personalismo – marca moral pertinente à maioria esmagadora
dos discípulos espíritas – é uma lente que procura dilatar nossos valores e
uma nuvem que busca ofuscar nossas imperfeições, tornando-se entrave à opinião
sincera em razão de insuflar o melindre e a mágoa." (66)
De novo, o ataque aos espíritas! Esse livro, sim, é uma nuvem que busca ofuscar
a luz que o Espiritismo lança sobre a vida das criaturas, o que incomoda grandemente
as Trevas. Os inimigos da Doutrina se cansaram de atacá-la de fora para dentro.
Agora querem implodi-la, usando a mediunidade.
"Ainda acerca das opiniões alheias, acostumemo-nos a elas
lembrando que o próprio Jesus não as dispensou quando perguntou em exemplar
atitude íntima aos discípulos:”Quem dizem os homens que eu sou?” (67)
Quem lê essa passagem em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, cap. IV, entende
que Jesus queria deixar o ensinamento sobre a reencarnação, e não saber da opinião
dos outros, mesmo porque ele não precisaria perguntar nada, pois lia o pensamento
das pessoas, conforme se depreende do diálogo com a Samaritana (Jo, cap. 4).
“Então eu gostaria de começar esse assunto dizendo, com a franqueza,
de sempre e com muita piedade, que os espíritas estão muito orgulhosos da humildade
que imaginam possuir! Sim, é isso mesmo, e vocês são testemunhas das lutas e
problemas que nossos irmãos queridos carregam para cá por causa disso.”
(166)
Depois de vários capítulos contendo bons alertamentos, as palavras acima, atribuídas
a Maria Modesto Cravo, chamam a atenção pela acusação generalizada aos espíritas,
até parecendo contaminadas pelos discursos do Dr. Inácio Ferreira, que não se
cansa de falar mal de médiuns e de espíritas, através de ditos chistosos e de
uma pretensa franqueza, vazados numa linguagem pouco condizente com a dignidade
da mensagem espírita.
“Para ser franca e brincar um pouco com coisa séria, o movimento
espírita está parecendo uma passarela onde o orgulho desfila com várias fantasias.
Fantasias de grandeza e propriedade da verdade são os adornos que mais se vê!!!”
Logo após meu retorno para a vida dos espíritos, fui convocada por Eurípedes
a coordenar as ações para (sic) um novo pavilhão junto a essa casa de amor,
destinado a socorrer os líderes religiosos Cristãos da humanidade, especialmente
os dirigentes espíritas. Por três décadas consecutivas venho aprendendo nessa
tarefa sobre os perniciosos reflexos do orgulho. O pavilhão sob as ordens de
minha equipe tem crescido em tamanho e necessidades a cada dia.” (167)
Novamente o ataque aos espíritas. Até parece o “Dr. Inácio”! Nunca Maria Modesto
Cravo faria tal afirmação a respeito dos espíritas. Entre os espíritas pode
haver algumas expressões isoladas de orgulho e vaidade, mas essa generalização
é descabida. É de se perguntar como pode alguém combater o orgulho de outrem
fazendo afirmações de poder e de mando como as acima? Compare-se a humildade
de Clarêncio, Aniceto, Alexandre, Calderaro, Gúbio, Áulus, que nunca declararam
estar no exercício de chefia alguma.
“Em todos os campos dos seguidores de Jesus encontramos fracassos
e quedas. Nossos amigos de ideal espírita, por exemplo, costumam falar do orgulho
como quem conhece e domina o tema, dando notas de sua presença até mesmo na
prepotência em falar do assunto. Poucos demonstram consciência do orgulho do
qual são portadores, poucos sabem realmente onde e como sua vaidade se manifesta.
Basta dizer humoradamente que existem muitos corações orgulhosos da reforma
íntima que já fizeram. Tão orgulhosos que se sentem melhores e mais adiantados
que a maioria das pessoas, dando ensejo ao surgimento das férteis imaginações
de que são missionários prontos para salvar a humanidade, quando, em verdade,
expressiva maioria deles não estão conseguindo salvar nem a si mesmos.”
(168)
Pobre Maria Modesto Cravo que, como o eminente Dr. Inácio Ferreira, está agora
sendo caricaturada por esses Espíritos, cuja leviandade os leva a formular afirmativas
tão absurdas como as que se lê acima. Esse livro não mereceria sequer comentário,
não fosse para ajuda alguns espíritas novatos, ainda incapazes de avaliar tamanha
mistificação.
“Essa modéstia imaginada pelos espíritas precisa ser esclarecida
em favor da felicidade deles próprios. Eles estão com orgulho da humildade que
supõem possuir, meus amigos! Isso é grave!...” “Uma modéstia imaginada e não
sentida, uma quase fragmentação que beira os quadros mais conhecidos da “psicose
pacífica, aceitável.” “Como assevera Inácio Ferreira: “os espíritas estão passando
por uma loucura controlada, uma psicose intermitente...” Mas temos que perguntar:
quantos conseguirão manter esse controle e até quando?” “Ainda usando as claras
observações de Inácio, ele nos diz que “o pior louco é aquele que finge que
não é louco, porque não assume, não quer enxergar.” (170)
Se alguém, que não conhece o Espiritismo, ler essas barbaridades veiculadas
por esse ou esses Espíritos, vai imaginar que os centros espíritas estão lotados
de pessoas orgulhosas, tolas, que se enganam a si próprias, nada fazendo pelo
seu aprimoramento espiritual, que é a marca primeira da Doutrina. Parafraseando
o “Dr. Inácio”, pode-se dizer que o pior médium é aquele que não avalia aquilo
que publica, pois muito do que se lê nessa obra é um verdadeiro atentado ao
Espiritismo, através de um atentado ao bom senso.
“Vemos quantos companheiros estão empenhados em largar cigarro,
bebidas, carne e certos ambientes como se reforma íntima fosse restrita a movimentos
primários de contenção. O trabalho no terreno dos sentimentos é o fiel da balança
nos trâmites da evolução.” (170)
Novamente, a argúcia do mistificador se revela, quando coloca num mesmo plano
o uso da carne com os hábitos viciosos de beber e de fumar. Em verdade, a reforma
íntima não se restringe a “atos de contenção”, mas ela começa pela eliminação
dos vícios. Como pode uma pessoa alcoolizada desenvolver bons sentimentos? A
respeito do hábito de fumar, não se poderia esperar outra posição do “Dr. Inácio”,
pois ele faz questão de fazer tremenda propaganda desse vício em todas as suas
obras.
“Bom, chega de falar mal dos espíritas!” “Se um dia conseguirem
um médium corajoso o bastante para relatar minha fala, digam que fiz isto como
um “teste ao orgulho”. Quem ler minha fala até esse ponto, sem ter um enfarto
de revolta, é candidato a ser humilde no futuro.” (171)
Este Espírito, que se intitula Maria Modesto Cravo, se não é o mesmo que se
apresenta como Dr. Inácio Ferreira, pelo menos são do mesmo grupo, pois o falar
é igual: a relativização do vício de fumar (agora acrescida do de beber), o
ataque aos espíritas, a irreverência, o humorismo fora de contexto e o hábito
de alardear coragem. É lamentável que a mediunidade e a imprensa espírita sejam
usadas para isso...
“A melhor campanha para a instauração de um novo tempo na Seara
passa pela melhoria das condições do centro espírita, que é a célula operadora
do objetivo do Espiritismo. Lá sim se concretizam não só o conhecimento e o
trabalho, mas a absorção das verdades no campo individual em colóquios íntimos
e permanentes, que reproduzem os momentos de Jesus com seu colégio apostólico."
(175)
O período acima consta do apêndice, no final do livro. É intitulado “Programa
de Bezerra de Menezes”, mas no fim da página há a declaração da autoria: “autores
diversos”, o que leva o leitor a não saber qual o trecho atribuído ao abnegado
Espírito, ou, se é um uso indevido do seu venerável nome. Note-se o uso de frases
de efeito: O que quer o autor dizer com absorção das verdades no campo individual
em colóquios íntimos e permanentes? Será que Jesus vivia nesses colóquios permanentes,
como sugerido acima, ou vivenciava as verdades que pregava, através do serviço
ao Pai, na pessoa do próximo?
“Por isso, temos que promover as Casas, de posto de socorro
e alívio a núcleo de renovação social e humana, através do incentivo ao desenvolvimento
de valores éticos e nobres capazes de gerar a transformação.” “Para isso só
há um caminho: a educação.” (175)
E o que têm feito as casa espíritas orientadas segundo os ditames da Doutrina?
Não são núcleos de educação humana, através da divulgação dos valores éticos
do Evangelho de Jesus?
“O núcleo espiritista deve sair do patamar de templo de crenças
e assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem
de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem
espíritas e assumam designação religiosa formal.” (175)
Se um núcleo é “um templo de crenças”, não é um centro espírita. Se não é uma
“escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem”, também não o é.
E se está “tentando fazer com que alguém se torne espírita e assuma designação
religiosa formal”, também não é espírita. Portanto, onde esse Espírito se baseou
para fazer mais essas declarações falaciosas?
“Elaboremos um programa educacional centrado em valores humanos
para dirigentes, trabalhadores, médiuns, pais, mães, jovens, velhos, e o apliquemos
consentaneamente com as bases da Doutrina.” (175)
E não é isso que o Espiritismo tem feito? Aliás, tem feito mais, pois proporciona
educação à criança, através de aulas de evangelização, o que não consta das
recomendações pedagógicas desse Espírito.